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Verdades fundamentais da devoção à Santíssima Virgem – Parte V (final)

17, abril, 2012 4 comentários

Veja aqui a Parte I | Parte II | Parte III | Parte IV

Exposição feita pelo professor Plinio Corrêa de Oliveira sobre o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, de São Luis Grignion de Montfort.

Características da escravidão a Nossa Senhora

Vistos assim os tópicos 63, 64 e 65, que tratam de um assunto um tanto à margem da matéria, mas muito interessante, voltemos ao Capítulo II. Conforme prevenimos, nos ateremos menos ao texto, pelas razões que já demos.

São Luís Grignion expõe, a partir do tópico 69, o verdadeiro sentido da escravidão. Mostra inicialmente as diferenças entre o escravo e o servidor. “Servidor”, em sua linguagem, é o empregado, locatário de serviços, no sentido atual destes dois vocábulos. Trata-se pois de estabelecer a diferença entre um “escravo” e um “empregado”, no sentido hodierno da palavra.

As três principais diferenças, postas em foco por ele, são:

a) a escravidão se caracteriza, antes de tudo, por ser perpétua. A locação de serviços, ao contrário, é temporária. Ela pode ser por tempo fixo ou indeterminado. De um modo ou de outro, em dado momento, qualquer das partes poderá rescindir a locação.

b) A escravidão é incondicional, total, domina completamente o homem. O direito do senhor sobre o escravo é um direito completo, chegando até, nos países pagãos, a incluir o direito de vida e de morte. Os direitos do patrão sobre o empregado são circunscritos: um colono, por exemplo, não pode ser obrigado abruptamente a trabalhar fora das horas de serviço. Seu contrato de trabalho é bem definido.

c) A última diferença já está compreendida na incondicionalidade, mas convém destacá-la: trata-se da gratuidade. O trabalho escravo é naturalmente gratuito. O senhor é proprietário dos escravos, e portanto de seu trabalho. Qualquer que seja o valor desse trabalho, o senhor só deve ao escravo teto e alimento. A locação de serviços, pelo contrário, é sempre remunerada. E o empregado é livre de recusar o emprego, desde que o salário não lhe convenha.

Feitas estas distinções, São Luís Grignion pergunta o que somos em relação a Deus: escravos ou locatários de serviços? E prova que, no sentido de que o domínio de Deus sobre nós é perpétuo, pleno e gratuito, somos escravos. Deus tem de fato sobre nós um tal domínio, que se nos ordenar qualquer coisa, devemos executá-la por mero amor, de tal maneira que o faríamos, ainda que não recebêssemos d’Ele o Céu como recompensa.

 Os diversos tipos de escravidão

São Luís Grignion examina em seguida os diversos modos pelos quais alguém se torna escravo:

1) Primeiramente, torna-se escravo por natureza. É o caso de nossa escravidão para com Deus. Somos escravos porque somos criaturas: toda criatura, pelo fato de ser criatura, é naturalmente escrava de Deus Criador. Imaginemos um escultor que toma argila e nela esculpe uma estátua. Imaginemos ainda que a estátua comece a se movimentar. Entende-se que ela pertence, por natureza, àquele que a fez. Devendo o seu ser ao estatuário, a ele deve obedecer. Assim é o homem, por natureza, escravo de Deus. Todas as criaturas – Nossa Senhora, os Anjos, os demônios – são, por natureza, escravas do Criador.

2) Além desta, existe a forma de escravidão por constrangimento. Quando um rei entra em um país que o agrediu injustamente, e o domina – diz nosso Santo – pode, em certos casos, reduzir seus habitantes a escravos. Não serão escravos por natureza ou de livre vontade, mas por constrangimento, porque o rei vencedor lhes impôs sua lei. Os demônios são escravos de Deus, por natureza e constrangimento. Revoltaram-se contra Deus, e não respeitaram Seus direitos. Deus então interveio, e à escravidão de direito, em virtude da natureza dos demônios, somou uma escravidão por constrangimento, pela força.

3) Há, por fim, uma terceira forma de escravidão: por livre vontade. Admitamos que alguém, por admirar muito a outrem, se lhe dê por escravo. É um ato voluntário, pelo qual uma pessoa renuncia a toda sua liberdade, a todo o direito sobre si, e se coloca irrestritamente nas mãos de outrem. É uma escravidão por livre vontade.

 Seremos escravos, ou de Deus ou do demônio

Parece-me conveniente assinalar o trecho abaixo. Consubstanciando ele uma visão tão contra-revolucionária das coisas, convém que se saiba que é opinião de um santo, e não invenção nossa.

Antes do batismo, éramos escravos do demônio; o batismo nos fez escravos de Jesus Cristo. Importa, pois, que os cristãos sejam escravos, ou do demônio ou de Jesus Cristo” (tópico 73).

Considere-se um formigueiro humano visto por um olhar teológico, do alto de um arranha-céu. É forçoso pensar: todos aqueles homens são escravos, ou de Deus ou do demônio. Portanto, eu também o sou, não há outra alternativa. Nada, pois, mais natural do que a seguinte pergunta, para se conhecer alguém: é escravo de Deus ou do demônio? Pois escravo ele o é, necessariamente.

Em termos de doutrina católica, como se demonstra isto? Podemos não querer tributar a Deus a escravidão voluntária. Mas, com a escravidão por natureza, tal não se pode dar, pois escravos de Deus nós o somos, ainda que à maneira dos demônios. Pois a desobediência à Lei de Deus nos torna escravos do demônio, por várias razões:

a) Damo-nos ao demônio, porque quem rompe com Deus se entrega ao demônio;

b) Obedecemos ao demônio, porque seguimos a lei da carne, e a lei da carne é a lei do demônio;

c) Somos escravos do demônio também num sentido especial. O homem mau muitas vezes quereria o bem, mas não tem coragem e nem vontade de o praticar; pois sua vontade está culposamente manietada, está atada, está ligada por um vínculo que o impede de fazer o que quereria. É esta uma forma de escravidão – a escravidão a seus vícios. Ou seja, é a escravidão ao demônio, pois quem se escraviza a seus vícios é escravo de Satanás.

Conclui-se então que todo homem ou é escravo do demônio ou é escravo de Jesus Cristo.

 Algumas aplicações dessa escravidão à vida espiritual

Temos bem presente esta noção de que nós, assim como todos os homens, somos escravos de Deus ou do demônio, e de que nisto não há meio termo? Compreendemos que essa classificação dos homens nestes dois grupos de escravos corresponde bem ao espírito contra-revolucionário?

Aprofundando, poderíamos rememorar episódios de nossa vida: fomos sempre escravos de Deus? Ou às vezes o fomos do demônio? Ainda hoje, qual o nosso estado atual? De quem somos escravos no momento? Percebemos que estes princípios que São Luís Grignion lembra, sobre a escravidão, determinam uma atitude vigorosa e intransigente perante a vida, parecida com a que os contra-revolucionários preconizamos? Ou temos o hábito mental de viver despreocupadamente, como se ninguém fosse realmente escravo de Deus ou do demônio?

Temos o hábito de julgar a própria palavra “escravo” enérgica demais, e que bastaria dizer-se “amigo” ou “simpatizante” de Deus? Julgamos que chamar um homem reto de “escravo de Jesus Cristo” é enérgico demais? Achamos que não se deve falar nesses termos?

Não sendo de Deus, por que logo de uma vez “do demônio”? Não pode haver uma zona cinzenta entre esse branco e esse preto? A vida não será muito mais agradável se se considerar que existe essa zona cinzenta? Para São Luís Grignion e para a doutrina católica, no entanto, não é assim. Precisamente a zona cinzenta não existe. Tão somente a branca ou a preta. Só se pode pertencer a uma ou à outra. E é precisamente em função disto que muitas das atitudes contra-revolucionárias se explicam.

A plena aceitação dessa doutrina de escravidão, entretanto, não consiste apenas numa convicção doutrinária, ela gera um estado de espírito, uma atitude mental: o que se trata de adquirir é uma posição habitual perante os outros, de quem se sabe escravo e tem aos outros na conta de escravos.

Por que ser escravo de Maria, que é escrava de Deus?

Por que ser escravo de Maria, em vez de o ser de Nosso Senhor Jesus Cristo – pergunta-nos São Luís Grignion – já que Nossa Senhora é também escrava? Maria Santíssima não diz de si “ecce ancilla Domini“? Por que, então, ser escravo d’Ela? Sendo a Virgem Santíssima escrava, pode ter escravos? Que sentido racional tem isso?

Inicialmente São Luís Grignion faz uma introdução muito inspirada a respeito das relações de Nossa Senhora com Nosso Senhor. Embora não mencionando aquelas palavras de São Paulo “não sou eu que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim (Gal. 2,20), é este o pensamento que o santo desenvolve, mostrando que Jesus Cristo vive numa pessoa quando ela se santifica. E quando atinge a santidade, já não é aquela pessoa que vive, mas Jesus Cristo que vive nela.

Ora, sendo Nossa Senhora absoluta, inteira e perfeitamente santa, é também absoluta, inteira e perfeitamente Jesus Cristo que vive n’Ela. Estabelecer uma separação entre Maria e Jesus Cristo, de maneira a ser possível admirá-La sem admirar Jesus Cristo, ou cultuá-La sem cultuar a Jesus Cristo, segundo São Luís Grignion é o mesmo que procurar separar o calor da luz, numa chama que brilha e que ao mesmo tempo é quente. São elementos que se podem distinguir, mas não se separar.

Os pares de Carlos Magno para nossos modelos – Podemos tornar mais claro o exposto com algumas comparações. Segundo a lenda ou a História, os pares de Carlos Magno não foram apenas os sustentáculos que o auxiliaram a realizar a grande obra da defesa da Igreja e da fundação de um império cristão, mas homens formados por ele mesmo para isto. Guerreiros surgidos ao longo de sua vida de rei-guerreiro, os pares se destacavam acima de outros guerreiros, pois ele os foi formando para a luta, para a batalha e para a guerra, de maneira a assimilarem seu espírito cavalheiresco, suas idéias e seus princípios, e os aplicarem em suas próprias vidas.

Podemos então legitimamente dizer que, se um par de Carlos Magno absorveu, em toda a sua personalidade, todos os princípios de seu chefe, a análise da personalidade desse par é útil e interessante para quem queira conhecer Carlos Magno, pois foi uma reprodução viva daquele imperador. Ele aplicou, em circunstâncias já diferentes, os princípios que Carlos Magno ensinou e viveu. Assim, para se conhecer Carlos Magno a fundo, há vantagem em conhecer a história de seus pares. São outros tantos Carlos Magno, através dos quais poderemos penetrar melhor no conhecimento da obra, da mentalidade e da vida do grande imperador. Enfim, isto é tão verdadeiro que, se não tivéssemos nenhum documento sobre Carlos Magno, mas conhecêssemos a história dos seus pares, através dela poderíamos saber o que ele foi.

O mesmo se dá com os santos em relação a Nosso Senhor. São alter Christus. E estas considerações são muito mais verdadeiras no caso dos santos, pois o santo pratica a virtude heróica, e imita portanto a Nosso Senhor em toda a medida do que lhe é dado imitar. E mais verdadeiras são ainda em se tratando de Nossa Senhora, que é em toda plenitude alter Christus. A invocação Speculum Justitiæ, da Ladainha Lauretana, neste sentido é muito significativa, porque o espelho contém a imagem do original de modo insuperavelmente fiel, e tem a vantagem de não ter em si outra imagem senão aquela que ele reflete. Numa tela podemos distinguir a pessoa retratada do aspecto material da tela que entrevemos na pintura, mas o espelho só mostra a face daquilo que nele se reflete.

Sendo Nossa Senhora Speculum Justitiæ, amando-A, admirando-A e reverenciando-A, estaremos amando, admirando e reverenciando a própria Justiça, ou seja, a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por que ser mais especialmente escravo d’Ela? São Luís Grignion nos sugere uma comparação popular muito significativa: Num reino absoluto – uma monarquia oriental, por exemplo – todos são, de certo modo, escravos do rei; mas ele pode ter certos escravos mais especialmente a serviço da rainha; são escravos que ele dá para que a rainha mande neles mais particularmente. Assim acontece também na Igreja Católica e no universo. Sendo todos os homens escravos de Deus por natureza ou por conquista, e também, de algum modo, escravos por natureza de Nossa Senhora, é possível a alguns oferecerem-se mais especialmente para servi-La, para glorificá-La, para serem Seus escravos e combaterem por Ela. São estes os chamados para a devoção especial que São Luís Grignion recomenda em seu “Tratado”.

Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira

Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira

Verdades fundamentais da devoção à Santíssima Virgem – Parte IV

15, abril, 2012 12 comentários

Veja aqui a Parte I | Parte II | Parte III

Exposição feita pelo professor Plinio Corrêa de Oliveira sobre o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, de São Luis Grignion de Montfort.

Problema angustiante para São Luís Grignion

O Santo estava às voltas com um problema que encontramos em diversas épocas históricas. Imaginemos um fiel daquela época. Ao ler isto, ele verificaria que já ouviu de outros padres, talvez até de algum bispo, o que São Luís Grignion está condenando. Imediatamente surgiria uma dúvida: “A quem seguir? A um missionário que anda de um lado para outro, mal visto por tantos, ou a um bispo a quem não falta, entre outras coisas, o peso do prestígio? A esse padrezinho ou ao clero jansenista, que parece pensar de modo diferente? Que valor tem esse Grignion? Que mérito?”

É preciso ver que Nosso Senhor dá às almas dois modos para conhecerem o caminho. O primeiro consiste na análise da doutrina, conferindo-a com a da Igreja Católica. O segundo é por uma qualidade que se chama discernimento dos espíritos. Por ela somos capazes de discernir, mediante a fidelidade à graça de Deus, aqueles que têm verdadeiramente o espírito da Igreja. Se formos fiéis às graças que recebemos, saberemos quem é de Deus e quem não o é. Ora, está de acordo com a ordem desejada pela Providência que tenhamos, guiados por esse discernimento, uma confiança especial naqueles que temos certeza de que nos levam para Deus, sacrificando inclusive, dentro do limite da prudência – pois infalível é apenas a Igreja Católica – algo de nossa opinião pessoal.

Isto se dava com os fiéis franceses daquele tempo. Eles tinham a graça suficiente para ver em São Luís Grignion um homem de Deus. Deviam, portanto, corresponder a essa graça e crer nesse homem. Se cressem nele, estariam bem; se não, estariam mal. Esse discernimento dos espíritos, nenhum fiel pode deixar de praticar. No Antigo Testamento ele era necessário para se reconhecer os verdadeiros profetas, pois havia muitos impostores.

Atualmente a prática desse discernimento tornou-se mais fácil, pois temos o magistério infalível da Igreja. A adesão a este Magistério é um critério seguríssimo de verdade, mesmo que esteja contra a opinião de todos os homens.

Há ainda outro critério: quando sentimos que alguém revela um espírito de obediência absoluta à Igreja, de tal maneira que seja capaz de abandonar qualquer opinião própria, se a Igreja disser o contrário; que tenha, portanto, verdadeira humildade em relação a Ela, então podemos nele confiar. Quando não o sentimos, tomemos as devidas precauções.

Em São Luís Grignion era admirável a disciplina absoluta que tinha em relação à Igreja Católica, de maneira tal que escrevia tudo isso porque estava de acordo com Ela. Se, porventura, a Santa Sé alterasse em qualquer coisa a doutrina exposta por ele, submeter-se-ia e renunciaria a tudo o que fosse preciso. Esta é a disposição que tem um verdadeiro católico, e é por ela também que se reconhece o verdadeiro católico.

Enfim, fica atestado que os problemas da época de São Luís Grignion eram semelhantes aos que têm existido na Igreja, em outras épocas. Diante disso, ele era obrigado a usar uma tática ardilosa e indireta, para dizer o que queria. Isto vem refutar, por si só, aqueles que acham que a virtude é inteiramente simples, cândida e sem artifícios. Pelo contrário, sua linguagem pode ser, por vezes, artificiosa e até apimentada. Ele usa dela para inculcar nos fiéis as qualidades da verdadeira devoção mariana: afeto, força, persuasão.

Assim deve ser a ação do apóstolo que deseja a propagação da devoção à Virgem Santíssima.

Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira

Verdades fundamentais da devoção à Santíssima Virgem – Parte III

13, abril, 2012 4 comentários

Veja aqui a Parte I e Parte II

Exposição feita pelo professor Plinio Corrêa de Oliveira sobre o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, de São Luis Grignion de Montfort.

Apresentá-La de um modo terno, forte e persuasivo

“Se vêem ou ouvem algum devoto da Santíssima Virgem falar muitas vezes, dum modo terno, forte e persuasivo, da devoção a esta boa Mãe como de um meio seguro e sem ilusão, dum caminho curto e sem perigo, duma via imaculada e sem imperfeição, e dum segredo maravilhoso para chegar a Vós e Vos amar perfeitamente, clamam contra ele, e lhe apresentam mil razões falsas para provar-lhe que não é necessário falar tanto a respeito da Santíssima Virgem, que há muito abuso que é preciso empenhar-se em destruir, nessa devoção, e aplicar-se em falar sobre Vós, em vez de favorecer a devoção à Virgem Maria, a quem o povo já ama suficientemente” (tópico 64).

É a expressão do mesmo pensamento. Notemos, contudo, um pormenor: “Se vêem algum devoto da Santíssima Virgem falar muitas vezes, de um modo terno, forte e persuasivo“. Como se vê, até nas pequenas coisas de São Luís Grignion temos uma total identidade de posição com ele. Não se deve falar de Nossa Senhora de modo oco e romanceado, mas, como fez São Luís, de modo afetuoso, forte e persuasivo. Afetuoso e forte, isto é, que atinge a vontade; persuasivo, que atinge a inteligência. Nossa devoção à Virgem Santíssima deve basear-se em coisas que atinjam a inteligência, e não consistir apenas em melúrias e coisas adocicadas.

 Conjuração sistemática contra Nossa Senhora

“Às vezes metem-se a falar da devoção à Virgem Mãe Santíssima, não, porém, para assentá-la e propagá-la, e sim para destruir os abusos que dela se fazem. Estes senhores são, no entanto, desprovidos de piedade, e não têm por Vós sincera devoção, pois que não a têm a Maria. Consideram o rosário, o escapulário, o terço, como devoções de mulheres, próprias de ignorantes, sem as quais se pode obter muito bem a salvação. E se lhes cai nas mãos algum devoto da Virgem Santíssima que recita o seu terço ou pratica qualquer outra devoção mariana, mudam-lhe em pouco tempo o espírito e o coração. Em lugar do terço lhe aconselham recitar os sete salmos; em vez da devoção à Santíssima Virgem, aconselham a devoção a Jesus Cristo” (tópico 64).

São Luís Grignion denuncia aí um trabalho sistemático contra Nossa Senhora, feito dentro da Igreja. Mostra que havia, naquele tempo, pessoas desprovidas de sincera devoção para com Nosso Senhor, que tinham como principal preocupação destruir a devoção à Virgem Santíssima. Assim, se caísse em suas mãos alguém que tivesse o hábito de rezar o terço, a primeira coisa que fariam seria procurar tirar-lhe esse hábito, para aconselhá-la a rezar os salmos. São desvios antigos, que precederam os erros do liturgicismo. Os salmos, como sabemos, constituem a principal oração da Liturgia Sagrada, mas substituir com eles, obrigatoriamente, o rosário…

Há uma analogia muito grande nesse ponto. É importante ter presente que, segundo São Luís Grignion, essas pessoas não têm amor a Jesus Cristo, mas consagram-se apenas a destruir a devoção a Nossa Senhora, simplesmente porque a querem aniquilar. E não a substituirão por uma verdadeira devoção a Nosso Senhor.

Se formos verificar o resultado da ação dessas pessoas, zelosas em diminuir a devoção a Nossa Senhora, veremos que elas diminuem também o culto a Nosso Senhor. A devoção que têm a Jesus é fraca, pequena, sem consistência. Pelo contrário, naqueles que não temem exagerar a devoção a Nossa Senhora pelo receio de diminuir o culto a Nosso Senhor, verificamos que o amor deles a Jesus Cristo é intensíssimo. É a confirmação de que a verdadeira devoção a Jesus Cristo só existe quando há devoção à Virgem Santíssima. São as palavras de São Luís Grignion:

“Ó meu amável Jesus, terá essa gente o Vosso Espírito? Será possível que Vos agradem, agindo desse modo? Poderá alguém agradar-Vos, sem fazer todos os esforços para agradar a Maria, por medo de Vos desagradar? A devoção à Vossa Mãe impede a Vossa? Atribuirá Ela a si as honras que Lhe damos? Formará Ela um partido diverso do Vosso? É Ela, acaso, uma estrangeira sem a menor ligação convosco? É desagradar-Vos, querer agradar-lhe? Separamo-nos, talvez, ou nos afastamos de Vosso amor, se nos damos a Ela e A Amamos?” (tópico 64).

 Como se conhecem os verdadeiros homens de Deus

Entretanto, meu amável Mestre, a maior parte dos sábios, em castigo de seu orgulho, não se afastariam mais da devoção à Santíssima Virgem, nem a olhariam com mais indiferença, se tudo o que acabo de dizer fosse verdade. Guardai-me, Senhor, guardai-me de seus sentimentos e de suas práticas, e dai-me uma parte dos sentimentos de reconhecimento, de estima, de respeito e de amor, que tendes para com Vossa Mãe Santíssima, a fim de que eu Vos ame e glorifique na medida em que Vos imitar e mais de perto Vos seguir” (tópico 65).

Aqui a acusação se amplia: já não é “um ou outro” sábio, mas “a maior parte dos sábios”. É uma admoestação aos leitores, para que não sigam esses doutores pestilenciais, mas sigam a ele na devoção que ensina.

Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira

Verdades fundamentais da devoção à Santíssima Virgem – Parte II

11, abril, 2012 4 comentários

Veja aqui a Parte I

Exposição feita pelo professor Plinio Corrêa de Oliveira sobre o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, de São Luis Grignion de Montfort

Semelhança com os dias atuais

Isto é muito curioso. Atualmente os teólogos são também unânimes em afirmar as grandezas de Nossa Senhora. Não há um que ouse negar aquilo que dizemos a respeito d’Ela. E, no entanto, o que distingue os devotos de Nossa Senhora dos que não Lhe têm devoção, tanto hoje quanto no tempo de São Luís Grignion, é o mesmo. Estes últimos aprendem as verdades a respeito d’Ela, mas “de um modo especulativo, seco, estéril e indiferente”.

Especulativo – Há alguns teólogos que, inquiridos a respeito da devoção a Nossa Senhora, sabem dizer tudo com uma esquematização perfeita. Além disso, todas as suas afirmações são verdadeiras e certas. Mas é um conhecimento meramente especulativo, pois não há neles um amor vivo, uma atitude concreta que corresponda àquela convicção. Pelo contrário, tudo permanece etéreo.

Seco -os que fazem da Mariologia o que poderíamos chamar de “geometria dogmática”. Sabem citar todos os trechos da Sagrada Escritura ou dos Doutores da Igreja, e conhecem todas as regras de exegética que fundamentam os privilégios de Nossa Senhora. Mas esses conhecimentos não geram neles nem piedade, nem amor, nem entusiasmo. E, com a mesma indiferença com que um técnico, baseado em tabelas, fala a respeito da composição química dos anéis de Saturno, assim falam eles a respeito de Nossa Senhora e dos Seus privilégios.

Estéril - Essa maneira de pregar a devoção a Nossa Senhora não contagia ninguém, nem produz frutos apostólicos de qualquer espécie. Na formação ministrada por essas pessoas, Nossa Senhora não representa absolutamente o papel que Lhe atribui a doutrina católica. A vida interior das almas por elas formadas não deixa transparecer uma devoção a Nossa Senhora correspondente ao que a Igreja ensina. Portanto, os desvios de outrora são muito parecidos com os de hoje. Uma devoção a Nossa Senhora com calor, comunicativa, ardente, fecunda, é muito raro encontrar. 

  A pretexto de não ofender a Nosso Senhor, destroem a devoção a Nossa Senhora

Continua São Luís Maria Grignion de Montfort:

Estes senhores raras vezes falam de Maria e da devoção que se Lhe deve ter, porque – dizem – receiam que se abuse dessa devoção, e que se Vos ofenda honrando excessivamente Vossa Mãe Santíssima” (tópico 64).

Encontramos às vezes, entre católicos, a formulação de que o culto a Nossa Senhora é coisa boa, mas que “há um certo exagero nele, por onde Nosso Senhor não é suficientemente cultuado; é preciso cultuar a Virgem Santíssima, mas reservando sempre o primeiro lugar para Nosso Senhor”.

Ligada a esta formulação que amalgama dolosamente erros e verdades, há também uma atitude falsa com relação à devoção ao Santíssimo Sacramento. Assim, por exemplo, entrando numa igreja, encontramos com certa freqüência pessoas instruídas na Religião, rezando diante do Santíssimo Sacramento. Mas se formos procurá-las diante de uma imagem de Nossa Senhora, rarissimamente as encontraremos. Tem-se a impressão de que, para eles, o culto das imagens é uma espécie de utensílio para a piedade mais primitiva dos fiéis, uma coisa superficial. Por isso, em geral, entra-se numa igreja e se vai rezar diante do Santíssimo Sacramento; diante de uma imagem de Nossa Senhora, quão mais raro!

A verdade, porém, é inteiramente outra. De fato, o objeto principal de nosso culto numa igreja é o Santíssimo Sacramento. Mas se quisermos cultuá-Lo bem, é excelente que passemos por uma imagem de Nossa Senhora, pedindo a Ela as forças e as graças para fazermos diante de Nosso Senhor um minuto de adoração bem feita.

Em um dos ritos da Igreja Oriental há um costume muito bonito, pelo qual, antes da comunhão, os fiéis passam diante de ícones que há ao lado do altar-mor, e rezam aos santos ali representados para que os auxiliem, naquele momento de receber Nosso Senhor. E após receberem as Sagradas Espécies, passam diante dos ícones do lado oposto, e pedem aos santos que os auxiliem para bem receber os frutos da comunhão. Esta é uma compreensão perfeita do culto a Nosso Senhor. O bom católico nunca o vê separado do culto aos santos, muito menos ainda do culto a Nossa Senhora, pois a auréola normal de Nosso Senhor são os seus Anjos e seus santos.

Continua…

Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira

 

Fazer todas as coisas “com Maria, em Maria e por Maria” – II

4, fevereiro, 2012 8 comentários

Leia aqui a primeira parte

Trecho do TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM, por São Luís Maria Grignion de Montfort; 19ª edição – Editora Vozes – Petrópolis, 1992.

“1º)Sua fé viva pela qual creu fiel e constantemente até o pé da cruz sobre o calvário;
2º) Sua humildade profunda que A levou a esconder-se e calar-se e submeter-se a tudo, e a colocar-se em último lugar, 3º) Sua pureza divinal que jamais teve nem terá semelhante sob o céu e, por fim, todas as outras virtudes.

“Lembrai-vos, repito em uma segunda vez, que Maria é o grande e único molde de Deus, próprio para fazer imagens vivas de Deus, com pouca despesa e com pouco tempo. E que uma alma que encontrou este molde e que nele se perde, fica em breve inundada em Jesus Cristo aí representado ao natural.”

* A fé é uma confiança em Deus, por onde, nas circunstâncias mais adversas, se está certo de que a bondade de Deus não nos desampara

O solo da Igreja católica é sempre fecundo, o problema é saber se nossa fé é viva, se a raiz de nossa virtude é viva.

São Luís Grignion de Montfort toma a palavra fé em dois sentidos. Ele a toma no sentido de crer em tudo que a Igreja ensina, mas também em outro sentido: é uma confiança em Deus por onde, nas circunstâncias mais adversas, se está certo de que a bondade de Deus não nos desampara.

E ele dá então o exemplo supremo no qual Nossa Senhora deu prova da fé em ambos os sentidos da palavra: Nossa Senhora ao pé da cruz, no alto do calvário.

Ela ali tinha, antes de tudo, uma prova para a fé, quer dizer, quanto à crença. Porque é verdadeiramente terrível Ela, Mãe de Deus, sabendo que seu Filho era a vítima inocente por excelência, ver o Filho tratado como um perseguido pela justiça de Deus e dos homens.

* A Paixão: aspecto misterioso da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo

Há um mistério em torno de Nosso Senhor, a partir do momento do Horto das Oliveiras, em que se tem a impressão de que toda a cólera do Pai Celeste, do Padre Eterno, se descarrega sobre Ele, e de que todas as coisas acontecem para fazê-Lo sofrer. É uma seqüência impressionante de tormentos e de dores que Ele atravessa com aquela grandeza, com aquela serenidade, com aquela resolução, com aquela determinação, que vai desde o momento em que começa a suar sangue e a ter pavor, até o momento em que exclama do alto da cruz: “Meu Pai, Meu Pai, por que Me abandonaste?” E depois disso, consumatum est, como quem diz: “A medida foi cheia, Eu bebi o cálice inteiro”.

Nossa Senhora, ou pelas revelações ou a partir do momento do encontro, assiste àquilo tudo e crê sem um minuto de vacilação. Ela crê no que deve crer, quer dizer, que isto que parece uma injustiça pasmosa, é um pasmoso ato de justiça. Que o Filho d’Ela se ofereceu para ser o expiador de todos os pecados do mundo, e que, portanto, a cólera merecida por todos os pecados do mundo se descarrega de fato sobre Ele. E que sublimemente triturado pela cólera divina, Ele está com isto resgatando o mundo. Que isto tem um sentido altíssimo, profundíssimo, e que aí Ele realiza a missão d’Ele, e Ela realiza a missão d’Ela.

Ela crê nisso o tempo inteiro e esta fé A mantém de pé junto à cruz, sem nenhuma vacilação. Mas, de outro lado, Ela tem uma confiança sem limites na bondade de Deus. E Ela sabe que esses tormentos darão numa glória: darão na Ressurreição; darão na Ascensão; darão no Pentecostes; darão na glorificação do nome d’Ele em todas as épocas da História; darão naquele momento supremo de glória que é o fim do mundo, quando toda humanidade de todos os tempos estiver aos pés d’Ele e Ele pronunciar o juízo definitivo em função d’Ele: os que foram d’Ele vão para o Céu, os que não foram dEle vão para o inferno.

Quer dizer, toda esta imensidade de glória Ela sabia que era o prêmio que a bondade divina daria a tanta fidelidade. Ela estava ao pé da cruz, alimentada por essa esperança sublime, portanto na posição que Ela tinha tomado. Esta era Maria.

* Como se põem os problemas de fé para as novas gerações?

Poderia se pôr também para nós o problema: nas horas de aflição, de dor, de trevas, temos esta confiança em Deus? Antes de tudo, cremos com uma fé tão viva? E, em segundo lugar, temos essa confiança na bondade de Deus? Qual é o problema de crer com esta fé tão viva?

Se eu interpreto bem os estados de alma da minha dileta geração-nova – tão majoritária no auditório, que é em grande maioria a ela que me dirijo –, se eu entendo bem os estados de alma de minha cara geração-nova, os problemas de fé não se põem propriamente em termos apologéticos. Não é saber se está provado que Deus existe ou não, quais são as provas apologéticas de que Nosso Senhor Jesus Cristo existiu, de que Ele foi Deus. Tudo isto não nos preocupa tanto.

Mas é quando acontece alguma coisa com que não se contava; alguma coisa que não queríamos e que acontece de um modo que não se imaginava; então ficamos estupefatos: “ah! como é que foi isto?”

Mas como nós estamos sob os olhares de Nossa Senhora, as derrotas mais cedo ou mais tarde revertem em glória. É preciso ter confiança, acreditar na bondade d’Ela.

* Ainda que venham vagalhões que nos dêem a entender que a bondade não existe, nós devemos confiar, com os olhos fechados, que virá o momento em que isto vai se manifestar

É preciso crer em tudo quanto a Igreja ensina. Portanto, em todo o sobrenatural, em toda a bondade de Nossa Senhora. É preciso de outro lado, além de crer nessa bondade, quando vêm vagalhões que nos parecem dar a entender que essa bondade não existe, nós confiarmos, com os olhos fechados, que virá o momento em que isto vai se manifestar para nosso caso concreto nesta vida; vai se manifestar uma grande expressão da bondade d’Ela, e então nós veremos isto chegar.

Esta é a posição de Nossa Senhora diante das circunstâncias difíceis da vida, esta é a posição que Ela nos pede que tomemos, mas olhando para Ela, pensando: “Ela é nossa Mãe e nossa Rainha. Por onde Ela passou nós devemos passar, e se Ela nos deu o exemplo, nós devemos seguir.”

Mas, com uma diferença, com que colossal e imensa diferença, com que fabulosa diferença: é que Nossa Senhora não tem comparação com ninguém, nenhum ente criado tem qualquer forma de comparação possível com Nossa Senhora. Nós podemos tomar o mais rutilante dos Anjos, o santo mais assombroso como virtude, ele não tem nenhuma comparação possível com Nossa Senhora. Um grão de areia e o mais belo dos brilhantes são muito mais próximos um do outro do que o é o mais alto Querubim, ou o mais alto Serafim, ou o mais alto santo e Nossa Senhora.

Ela sabe disso e Ela conhece a nossa fraqueza. E, por causa disto, Ela é Mãe de Misericórdia também num outro sentido: Ela não nos pede apenas sacrifícios de estrangular, aflições de escaldar, mas Ela mesma é nossa consoladora.

* Ao mesmo tempo, Rainha dos Mártires e Consoladora dos Aflitos

Quer dizer, Ela socorre os que sofrem, lhes diminui as penas, lhes atenua as aflições, intervém a propósito de mil circunstâncias para mostrar que Ela é Mãe; para sorrir e para nos fazer entender que não nos será exigido o que foi exigido d’Ela. Porque se um de nós tivesse que suportar a dor que Ela teve num só dos episódios da Paixão de Nosso Senhor, se desintegraria.

Por exemplo, se nós tivéssemos a ventura de amar Nosso Senhor Jesus Cristo como Ela O amou, e nós passássemos  pelo ato – uma verdadeira cerimônia – do encontro em que Ela O encontrou daquele modo desfigurado, na Via Sacra, nós literalmente nos desintegraríamos.

Ela sabe disso e muito do que Ela sofreu ali foi para que não tivéssemos que sofrer tanto. E é por isto que a Rainha dos Mártires é ao mesmo tempo a Consoladora dos aflitos. Há quase uma contradição entre isso, porque a Rainha dos Mártires deve ensinar os mártires a sofrer, e a Rainha dos aflitos ajuda os homens a não sofrer, afasta o sofrimento dos homens. Ela é a Consoladora dos aflitos.

Ela muitas vezes nos dá forças para suportar uma aflição, outras vezes Ela afasta de nós essa aflição. Quantas e quantas e quantas vezes!

Então, aos pés de Nossa Senhora nós saberemos apresentar as aflições que não suportamos e dizer a Ela: “Minha Mãe, vede a minha fraqueza. Se Vós não me dais forças excepcionais, eu não agüento, apressai-Vos em me socorrer”.

Ou até dizer outra coisa: “Minha Mãe, eu não tenho nem coragem de Vos pedir forças excepcionais, mas eu Vos peço um sorriso para minha fraqueza, um perdão para minha fraqueza, uma condescendência para com minha fraqueza. Mais adiante talvez eu agüente alguma coisa de parecido com isto. Se eu não agüentar, perdoai-me e levai-me para o Céu assim mesmo, porque Vós sois Mãe de toda misericórdia”.

Esta é a posição que a fé nos ensina que devemos tomar.

Aí está a referência a Nossa Senhora como modelo de fé, considerada em função das aflições de nossa vida particular.

* A humildade é o compreender que se deve atribuir a Deus tudo quanto se tem

Nós poderíamos falar da humildade de Nossa Senhora. Bem entendido, não é uma humildade sentimental e adocicada de pessoa que nega tudo quanto Deus pôs nela e toda sua própria grandeza. Vê-se isso no Magnificat, quando Ela diz que “bem aventurada A chamarão todas as gerações”.

Onde está a humildade d’Ela? É em compreender que Ela deve atribuir a Deus tudo quanto Ela tem; isto sim é humildade. Também, não querer ser mais do que Ela é.

Alguém dirá: “Mas Dr. Plinio, se Ela era tudo, como não querer ser mais do que é?”. Há abismos de miséria no homem. Não havia n’Ela porque era concebida sem pecado original.

Muitas vezes, quem é mais tem inveja de quem é menos, porque ele quereria ser o que ele é e ter mais do que o outro tem. Então, o sujeito é, digamos, um grande violinista, mas vê um outro que assobia bem – uma coisa tão inferior – e fica com inveja: “Aquele bandido assobia bem, eu queria saber assobiar também”!

Nossa Senhora não tinha inveja dos que eram menos, Ela estava bem na sua posição. Estar na sua posição é a verdadeira humildade.

E por fim, São Luís Grignion de Montfort fala da pureza de Nossa Senhora. Sobre a pureza de Nossa Senhora não há o que dizer. Ela é a Santa Virgem das virgens. Ela é a Virgem Mãe, Virgem antes, durante e depois do parto, Ela é o próprio modelo da pureza, Ela é a fonte da pureza.

* Fazer tudo com Maria é ser contra-revolucionário na perfeição

Se formos cheios de fé, cheios de humildade – quer dizer, de senso hierárquico, de sacralidade que atribui tudo a Deus – e cheios de pureza, nós seremos os contra-revolucionários por excelência, porque esse é o contra-revolucionário.

Então, fazer tudo com Maria é ser contra-revolucionário na perfeição. Se A tomamos como Modelo, fica-nos muito mais fácil. Ela nos ajuda. Rapidamente seremos como Ela, desde que creiamos inteiramente na eficácia da devoção a Ela. Quer dizer, desde que compreendamos que é preciso fazer como diz São Luís Grignion de Montfort: fazer tudo muito unidos a Ela. Se fizermos tudo muito unidos a Ela, tudo obteremos. Se nos custa a obter é porque não estamos bem unidos a Ela. Isso é o que devemos considerar.

Resultado: pedir a Nossa Senhora com todo empenho que Ela nos dê esta vigilância, sobretudo nos dê a compreensão das altíssimas virtudes d’Ela, para fazermos tudo querendo ser perfeitos contra-revolucionários como Ela, que foi o modelo supremo, a fonte, o canal, se quiserem, da Contra-Revolução. Nós nos transformaremos rapidamente.

É o que eu tinha a dizer.

Fazer todas as coisas “com Maria, em Maria e por Maria” – I

2, fevereiro, 2012 14 comentários

No Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (*), São Luís Maria Grignion de Montfort afirma que devemos fazer todas as coisas “com Maria, em Maria e por Maria”. Eis os comentários que a respeito fez o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no “Santo do Dia” de 26/5/1972. O trecho introdutório, em destaque, é do autor do Tratado.

”É mister fazer todas as ações com Maria, isto é, em todas ações olhar Maria como modelo acabado de todas as virtudes e perfeições que o Espírito Santo formou numa pura criatura, e imitá-lo na medida de nossa capacidade. Cumpre, portanto, que em cada ação consideremos como Maria fez ou faria se estivesse em nosso lugar. Devemos por isso examinar e meditar as grandes virtudes que Ela praticou durante a vida, especialmente:

”1º)Sua fé viva pela qual creu fiel e constantemente até o pé da cruz sobre o calvário; 2º) Sua humildade profunda que A levou a esconder-se e calar-se e submeter-se a tudo, e a colocar-se em último lugar, 3º) Sua pureza divinal que jamais teve nem terá semelhante sob o céu e, por fim, todas as outras virtudes.

”Lembrai-vos, repito em uma segunda vez, que Maria é o grande e único molde de Deus, próprio para fazer imagens vivas de Deus, com pouca despesa e com pouco tempo. E que uma alma que encontrou este molde e que nele se perde, fica em breve inundada em Jesus Cristo aí representado ao natural.”

 

São Luís Grignion de Montfort coloca o “Tratado” aos pés de Nossa Senhora (conjunto escultural na igreja dos Montfortanos em Roma)

 

* Fazer as ações com Maria é essencialmente ter Maria como modelo

O pensamento de fazer as ações com Maria é essencialmente ter Maria como modelo. Por que ter Maria como modelo é fazer as ações com Maria? Por que a palavra “com” se aplica aí?

Aplica-se por causa da idéia do molde, que ele desenvolve no Tratado da Verdadeira Devoção. Ele mostra a diferença entre um estatuário esculpir uma estátua e uma pessoa fazer uma estátua com um molde: num molde de ferro, de metal ou de madeira o trabalho é muito mais simples, é só adaptar gesso ali, deixar que seque e sai a figura que se quer obter. Enquanto que o trabalho do escultor – do estatuário que faz com formão e martelo a sua estátua – é um trabalho muito maior, muito mais arriscado; às vezes parte um pedaço do mármore, acontece uma coisa e outra; enquanto que fazendo no molde é rápido, é barato e é seguro porque é certo que a figura assim modelada sai parecida com o original.

É, portanto, como molde, é por meio do molde que nós fazemos essas estátuas. Bem diz ele que Nossa Senhora é o molde de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que Ela é também, para nós, o nosso molde. Quer dizer, se nós nos modelarmos inteiramente conforme Ela, como Ela é o molde de Cristo – nós somos o gesso adaptado àquele molde – nós ficamos parecidos com Nosso Senhor Jesus Cristo. E, então, ter a Ela como modelo é ter a Ela como molde; ter a Ela como molde é fazer tudo com Ela. Este é o sentido de fazer “com Ela”.

* Ter Maria como modelo supõe um tipo de alma que o dia inteiro está a par do que acontece dentro de si mesma

Agora, como é que se tem Maria como modelo? Ele dá alguns elementos para isto.

O primeiro elemento é tê-la em vista em todas as ações que se pratica. O que supõe um hábito de vigilância interior, um hábito de meditação contínua. Quer dizer, se eu, para cada ação que faço, devo ter Nossa Senhora como modelo, eu devo ter muita atenção posta em cada uma das minhas ações. É inevitável. Eu devo ver com clareza como é minha ação e devo saber analisar a minha ação. Ela é de acordo com Nossa Senhora ou não? Então, supõe muita vigilância, muita atenção sobre mim mesmo; supõe que eu tenha um tipo de alma que o dia inteiro está a par do que acontece dentro de si mesma e capaz de formar um juízo sobre o que está fazendo.

Bem, de outro lado supõe que a alma conheça bem Nossa Senhora, tenha idéia de qual é o ideal que deve imitar. Até, numa ordem inteiramente lógica, se deveria dizer a coisa de um modo diferente: primeiro, ter uma idéia clara do ideal que se deve imitar, e, em segundo lugar, saber ver em si mesmo se está de fato imitando aquele ideal.

* Fé, humildade e pureza: virtudes eminentemente contra-revolucionárias

Então, ele indica a imitação das virtudes de Nossa Senhora e, na imitação dessas virtudes, indica três principais: a fé, a humildade e a pureza, três virtudes eminentemente contra-revolucionárias.

A fé é o fundamento de toda virtude, sem ela nenhuma virtude merece verdadeiramente ser chamada virtude. Ela é a raiz de todas as virtudes, o que dá como resultado que quando uma planta não tem a raiz sadia, toda a planta padece, porque todo sistema de nutrição da planta, ou pelo menos grande parte de seu sistema de nutrição, fica prejudicado.

Assim também, a Igreja Católica é o solo. A nossa raiz é a fé com que nossas almas imergem neste solo bendito que é a Igreja Católica.


*TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM, por São Luís Maria Grignion de Montfort; 19ª edição – Editora Vozes – Petrópolis, 1992.