Um Conto de Natal: Alma aflita – Parte I

Em seu corpo dolorido, também a alma estava triste e ferida.

Mais que o frio da noite, mais que as dores nos membros, de tanto errar pela cidade, ela sofria de um mal latente e profundo.

Naquela vigília de Natal, a alma atormentada vagueava pelas ruas procurando ignorar a causa de seu sofrimento.

Há muito tempo ela havia se acomodado na indiferença. A última vez que se havia ajoelhado num confessionário para receber o perdão de suas faltas, quando foi?

Não se creia que se trate de um grande criminoso, não. Era uma pessoa comum, que levava sua vidinha. Apenas se esquecera da Lei de Deus, que substituíra por seu bel prazer, pelo egoísmo e por toda espécie de baixezas que passavam por sua alma, como o ruído de folhas mortas levadas pelo turbilhão de um sopro maligno.

Era um homem? Uma mulher?

arvoredenatalPouco importa. Era uma alma mergulhada na tristeza, fruto inevitável e amargo da má consciência ao ver, sem mesmo querer confessar a si mesma, tudo o que perdeu ao rejeitar a amizade de Deus.

Há tantas almas dessas pelo mundo neopagão de hoje, endurecidas pelo hábito do ceticismo!

O dia inteiro ela se havia agitado para concluir os últimos preparativos de Natal. Pois, apesar do abandono de sua vida espiritual, essa alma se lembrava ainda da alegria e da inocência de seus primeiros natais.

Tinha sede de uma felicidade que parecia escapar-lhe cada vez mais, e, na medida do possível, tentava recriar em torno de si o ambiente dos natais de sua infância.

Era bastante dotada para isso, e conseguia, apesar de tudo, reunir ainda alguns amigos e familiares em torno de um pinheiro bem decorado, de um pequeno presépio e de uma ceia para uma festa que não fosse muito melancólica.

Os anos haviam corrido, mas a alma imortal conservava a marca da infância inocente que ela havia tido.

Aliás, se o leitor prestar atenção nos adultos, verá que nas almas deles a criança nunca está muito longe, mesmo quando os pecados as tenham obscurecido. Essa criança acabará por despertar um dia?

* * *

A árvore brilhava havia vários dias com todas as suas bolinhas coloridas, e o presépio acima da lareira só aguardava a noite santa em que receberia o Menino Jesus.

Toda noite a alma se rejubilava ao fazer avançar seu carneirinho de barro. Começou também a fazer a oração que sua mãe lhe havia ensinado a rezar diante do presépio.

O carneirinho partira do alto da colina de papel, e a alma se perguntava se ele chegaria a tempo junto à manjedoura, para a noite de Natal.

Seu carneiro lhe recordava que também ela devia apresentar-se junto à gruta, toda de branco, para dirigir uma fervorosa prece ao Divino Infante por meio de Nossa Senhora.

Era o melhor presente que ela poderia oferecer ao Menino Jesus, que veio para nos salvar.

Salvar-me de quê? –– perguntou-se ela.

Salvá-la do pecado, abrir-lhe as portas do Céu, torná-la filha de Deus, resgatá-la das garras do demônio, morrendo por ela na Cruz.

No catecismo, a alma havia compreendido muito bem que, por causa do pecado cometido por nossos primeiros pais que desobedeceram a Deus, a humanidade inteira, que deles procedeu, se tornara pecadora, inclinada ao mal, privada da vida divina, da vida da graça.

Foi para nos dar essa vida, livrar-nos da escravidão do pecado, que Jesus veio ao mundo e morreu na Cruz.

Deitado na manjedoura, entre o boi e o asno, o Menino Jesus abre seus bracinhos para nos acolher… mas Ele já os estende em forma de cruz!

Quando fizera sua primeira comunhão, o Natal tornara-se ainda mais belo. Como era luminosa a missa de meia-noite na igreja paroquial! Os círios brilhavam sobre o altar, os cânticos natalinos subiam ao céu com as nuvens de incenso…

Na hora da comunhão, a alma recebia Jesus, seu Salvador. Ela O adorava como os pastores haviam feito na gruta de Belém, oferecendo-se a Ele e sendo inundada de felicidade por seu amor misericordioso.

Ela tinha se preparado cuidadosamente para esse encontro maravilhoso. Vários dias antes, tinha ido confessar suas faltas humildemente, com verdadeira contrição, a um velho sacerdote que sempre a encorajava com bondade a perseverar no caminho do bem.

— Reze também por mim. Dia virá em que não me encontrarás mais aqui para te aconselhar.

A alma saía do confessionário na maior leveza, cheia da tranqüila felicidade de se ver na amizade de Deus.

E todas as noites recitava aquela prece ensinada por sua mãe diante do presépio, em preparação ao Natal. Era uma bela oração dirigida à Virgem Santíssima, que tudo nos obtém de seu divino Filho.

— Como era mesmo essa oração? –– perguntava-se a alma atormentada.

(Por Benoît Bemelmans, extraído de Catolicismo)

Continua…

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