Cinzas de um Carnaval que passou: somos o que seremos.

“Lembra-te, ó homem, que és pó e que em pó te hás de tornar"

“Lembra-te, ó homem, que és pó e que em pó te hás de tornar”

 

Nesses dias que antecederam o chamado “reinado de Momo” e agora em plena festa, ponho-me a pensar na efemeridade da vida.


Minha lembrança volta-se à cerimônia tocante e comovente;

Que deveria impregnar a alma de todos com um sincero desejo de retorno para Deus;

Quando o sacerdote, usando vestes de penitência, impõe, em nossas cabeças, as sagradas cinzas com uma admoestação severa e solene:


Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris” (Gn 3, 19) “Lembra-te, ó homem, que és pó e que em pó te hás de tornar”.


Santo Inácio de Loyola, falando sobre o objetivo central do homem nesta terra, dizia ter sido o homem feito para:


“amar a Deus e salvar a sua alma”.


“Amar a Deus e salvar a alma”, deveria ser para todos a única preocupação iminente durante a vida inteira;

Já que fomos criados para Deus e, perde-lo, por culpa, significa a falência completa, a infelicidade eterna.


Como salvar a nossa alma?

Praticando os mandamentos!

E todos estão contidos no primeiro: ”Amar a Deus sobre todas as coisas!”

Estamos vivendo em tempos piores do que o do dilúvio.

Nesses tempos verdadeiramente das trevas, a humanidade rompeu com seu Criador, a criatura torna-se senhor de sua própria existência.


Deus é banido da sociedade e das leis do Estado.


Cresce uma nova humanidade que brada aos quatro ventos o seu laicismo:

Sem religião, sem Deus, sem nada.


No carnaval, festa pagã e da carne, afloram, de maneira mais escancarada todas as inclinações para o mal.


E se existe alguma barreira ainda não rompida, o espírito carnavalesco corrói sem muitas dificuldades toda e qualquer resistência;

Visto que é comum nesses dias de folia, a abolição de toda ou quase toda moralidade.

Não preciso aqui lembrar como os santos enxergavam essa festa e como condenavam veementemente esses dias de folia.

E olha que eles viveram em tempos remotos, mais tranquilos, quando não havia, ainda, o total declínio dos valores.

O que diriam eles hoje?

Os santos levaram a sério a sua meta:


“amar a Deus e salvar a alma”.


Sabiam eles que tudo isso aqui era passageiro e que, cedo ou tarde, estariam diante de Deus para um julgamento contra o qual ninguém poderá escapar.

Vivemos no cronos e nele devemos melhorar a cada instante, renunciando sempre ao mal;

Crescendo na prática das virtudes e eliminando o que não presta em nós.

S. Paulo gostava de comparar a vida espiritual, à busca da santidade, que exige renúncias;

Como o atleta que prepara-se a vida inteira, no labor constante, para poder ganhar a coroa da vitória.


Ora, se alguém é capaz de fazer isso por glórias passageiras, não deveria nós, cientes do nosso fim terreno, já que somos pó;

Empenharmos para , amando a Deus sobre todas as coisas, salvar a nossa alma?


Fala-nos a “Imitação de Cristo”:


“Mui depressa chegará teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas:

Hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe. 

Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da memória.

Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro!

De tal modo te deves haver em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora da morte.

Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte.

Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte.

Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã?

O dia de amanhã é incerto, e quem sabe se te será concedido?..” ( Cap 23)


É no cronos que devemos batalhar para salvar a nossa alma, pois na eternidade estaremos para sempre como sairmos deste mundo.

Na amizade de Deus ou Dele afastados eternamente.


Seremos aquilo que já somos


Por esses dias fui visitar ,numa cidade não tão distante daqui ,uma religiosa pela qual tenho grande apreço.

De uma inteligência privilegiada, perspicaz, conversava sobre tudo e sabia compreender bem a alma humana.

Poliglota, tradutora e eficaz em tudo que se dispunha realizar.

Depois de anos que não a via, fui informado, aqui, que começara o seu declínio, ficando esquecida já no início do mal de alzheimer.

Dirigi-me até lá, ao convento.

Encontrei-a aparentemente bem, mas já não era mais a mesma.

Esquecida completamente de muitas coisas… Percebi então que começara o seu declínio que a levará ao ocaso evidente.


Refleti bem sobre isso tudo.

Nossa vida é “poeira que passa”.

Cedo ou tarde estaremos em nosso ocaso.

E o que vale é termos aproveitado bem o tempo que Deus nos deu para que ascendêssemos a Ele.


“Vaidade das vaidades”, diz o Eclesiastes… “Lembra-te que és pó!”…

Como nos recordava o Pe. Antônio Vieira num dos seus sermões quaresmal, sabemos que nos tornaremos pó. Claro. Vemos a morte a nos rodear.

Olhamos para o que ela fez com os outros, com os nossos entes… O que restou deles?

Apenas o pó, nada mais.


Mas duas tragédias nos tomam de inopino:

A ilusão de que nunca nos tornaremos pó;

E a cegueira que nos impede enxergar o pó que já somos.


“Lembra-te que és pó….e que em pó de hás de tornar!” Seremos aquilo que já somos.

Multidões brincam, despreocupadamente, um carnaval avassalador, que destrói tudo o que é cristão, tudo o que é virtude e que nos aproxima de Deus.


Quantos pecados! Quantas blasfêmias!


Se no tempo dos santos antigos essa festa já era nociva à alma, hoje afirmamos ser impossível dela participar sem se afastar de Deus, pelo pecado.


Claro que muitos dirão
:


Ӄ radical demais, esse discurso.

Temos que nos divertir também!

O importante é não ter maldade!

Cada um faz o seu carnaval!

O cristão brinca como cristão!”…


Enganosa e falsa essas afirmações que provém de pessoas que querem servir ” a dois senhores”;

Como se fosse possível, servindo às trevas, querer também servir ao Reino de Deus.


Não existe meio termo para a mensagem do Evangelho e não existem santos sem radicalidade.


Ninguém pode ser ”meio honesto”, ” meio casto”, “meio verdadeiro”
.


Ou é ou não é!


Este é o preço e a exigência que Nosso Senhor nos faz.


“Seja o vosso falar ‘sim, sim; não, não’. O que passar disso é de procedência maligna” (Mateus 5:37). 


E ainda: 

“E, se um dos teus olhos te faz pecar, arranca-o; é melhor entrares no reino de Deus com um só dos teus olhos do que, tendo os dois seres lançado no inferno.” ( Marcos 9:47)

Ora, o carnaval em tudo que ele contem é impraticável para todo aquele que deseja o céu.


Impraticável sobretudo para os cristãos que devem assemelhar-se em tudo a Cristo.


Há como brincar o carnaval de forma cristã?


Não!


A abundância de comida para um obeso ou alguém que está de dieta não inibirá os desejos, muito pelo contrário.

Pode-se ir até com boa intenções, mas as músicas, os gestos sensuais, os trajes imorais e as práticas pagãs destruirão por completo toda e qualquer inocência.

Diante de tanta profanação do corpo que é templo do Espírito Santo, de tanta imoralidade, de tantas almas que se perdem, de tanta irreverência contra Deus;

Fiquemos com o exemplo dos santos:

Aproveitemos o Kairós – o cronos – o tempo presente que nos foi dado.


S. Domingos Sávio, em tenra idade foi capaz de dizer e viver: ”ANTES MORRER QUE PECAR”


Saibamos o que somos e o que seremos:

Pó, apenas pó…nada mais que isso! 

E do pó lançado à terra… um dia, surgirá e vida novamente.

“Assim também agora vós tendes tristeza, mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar.” (João 16.22)

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Fonte: padremarcelotenorio.com

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