Um Sínodo “extraordinário” sob todos os pontos de vista…

José Antonio Ureta

A respeito do tristemente famoso “Sínodo da Família”, já publicamos alguns posts neste espaço, que é destinado especialmente a debater questões relacionadas à instituição familiar.

Tal Sínodo dos Bispos transcorreu-se em outubro passado, mas hoje retorno a esse evento — cujo documento final foi estigmatizado como “inaceitável” pelo Cardeal polonês Stanislaw Gadecki —, pois a revista Catolicismo deste mês publicou uma matéria (segue abaixo) muito importante a respeito, que certamente é do interesse de nossos leitores que desejam um estudo mais aprofundado
do tema.

Um Sínodo Extraordinário sob todos os pontos de vista

Menos de um mês após a realização da JMJ (Jornada Mundial da Juventude) no Rio de Janeiro, em julho de 2013, o Papa Francisco comunicou ao Secretário do Sínodo dos Bispos, Dom Renato Baldisseri, antigo Núncio no Brasil, sua determinação de convocar uma 3ª Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos.

Com efeito, os Sínodos ordinários são realizados em Roma a cada quatro anos, o próximo devendo acontecer em 2015. Mas o Papa pode convocar uma assembleia geral extraordinária a qualquer tempo, aproveitando-se para isso de circunstâncias ou datas de grande relevo.

Por exemplo, o anterior Sínodo Extraordinário ocorreu em 1985, para analisar o estado da Igreja Católica vinte anos após o encerramento do Concílio Vaticano II.

Fruto dessa decisão de Francisco I, tomada logo após o retorno do Brasil, em 8 de outubro, foi anunciada a convocação da referida 3ª Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos.

Esta deveria tratar dos “desafios pastorais da família no contexto da evangelização”, tema que voltará a ser tratado no Sínodo Ordinário de 2015 a respeito de “Família e pessoa humana”.

A escolha do tema causou certa surpresa, pois em 1981 já houvera um Sínodo sobre a família, que teve como fruto a Exortação Apostólica Familiaris Consortio “sobre a função da família cristã no mundo de hoje”, documento magisterial que guia há 30 anos a pastoral familiar da Igreja no
mundo inteiro.

Desde então, nada de substancial parecia ter mudado, nem na crise da família, nem na resposta pastoral da Igreja.

Também surpreendeu essa sequência de dois Sínodos, um Extraordinário e um Ordinário, a respeito do mesmo tema. A aparente explicação só veio recentemente e também é ligada ao Brasil: segundo o vaticanista Luigi Accatoli, no seu encontro com os bispos brasileiros no Rio de Janeiro, o Papa Francisco teria ficado impressionado com o método usado pela CNBB (Conferência dos Bispos do Brasil) para adotar o novo programa de reforma das paróquias.

Após uma consulta interna, a assembleia episcopal brasileira teria redigido um esquema provisório, enviado posteriormente para consulta às bases nas diferentes dioceses, cujas orientações seriam recolhidas no documento definitivo (publicado depois sob o título “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia. A conversão pastoral da paróquia”).

Esse método de trabalho em dois tempos teria inspirado, segundo Accatoli, a decisão do Papa Francisco de convocar dois sínodos sucessivos e separados apenas por um ano, com o fim de assegurar uma ampla consulta às bases.

Cardeal Baldisseri

De fato, na carta que o Cardeal Baldisseri enviou aos presidentes das Conferências episcopais no dia 18 de outubro de 2013, anunciando a convocação do Sínodo Extraordinário, ele recomendava uma ampla distribuição nas paróquias de um questionário contendo 38 perguntas a respeito das “novas problemáticas” em torno da família, como a difusão dos casais “de fato”, as famílias monoparentais, a difusão do fenômeno do “aluguel de úteros”, etc.

Dois temas abordados no questionário abriram caminho para um grande debate: as uniões entre pessoas do mesmo sexo e o tratamento pastoral — especialmente o acesso à comunhão eucarística — dos casais divorciados em segunda união.

Mudança da Prática Pastoral e do Ensinamento da Igreja em Matéria Sexual?!

O documento introdutório das perguntas acenava, efetivamente, para uma mudança de atitude da Igreja, em nome do “vasto acolhimento que tem, nos nossos dias, o ensinamento sobre a misericórdia divina e sobre a ternura em relação às pessoas feridas, nas periferias geográficas
e existenciais”.

Tanto mais quanto o próprio Papa Francisco, no voo de retorno do Brasil, havia dado a entender que uma mudança da posição tradicional da Igreja nos dois temas mais controvertidos não devia
ser excluída.

Quanto aos homossexuais, sua conhecida resposta de que se eles procuram a Deus e têm boa vontade “quem sou eu para julgá-los?” — a qual passará provavelmente para a História como o resumo do seu pontificado —, já tinha influenciado parlamentares católicos a que votassem em favor de leis aprovando o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Entrevia-se a mesma abertura a partir de outra resposta aos jornalistas, no mesmo avião de retorno do Rio de Janeiro.

Perguntado se existe a possibilidade de mudar alguma coisa na disciplina da Igreja a respeito do acesso aos sacramentos por parte dos divorciados, ele afirmou:

“Um parêntese: os ortodoxos têm uma praxis diferente. Eles seguem a teologia da economia, como eles a chamam, e dão uma segunda chance, permitem-na. Mas acredito que esse problema — fecho o parêntese — deve ser estudado no marco da pastoral matrimonial.”

A nomeação como secretário especial do Sínodo Extraordinário do bispo e teólogo Dom Bruno Forte, expoente de uma linha teológica e pastoral aberta, veio aumentar ainda mais a expectativa de uma eventual mudança do ensinamento da Igreja em matéria sexual.

Expectativa que se acentuou ainda mais após a imprensa transcrever declarações de uma mulher argentina e de seu companheiro divorciado, segundo as quais o Papa Francisco teria telefonado a ela, e que no curso da conversação a autorizou receber a comunhão, apenas tomando o cuidado de não fazê-lo na própria paróquia para não criar conflito com o vigário.

A sala de imprensa do Vaticano não desmentiu essa versão dos fatos, limitando-se a declarar que tais conversações deveriam ser entendidas no contexto das relações pastorais pessoais do Papa, e não como um evento que acarreta “consequências em relação aos ensinamentos da Igreja.

Indissolubilidade do Matrimônio e a Proibição da Comunhão aos Pecadores Públicos

Essas intervenções do mais alto vértice do Vaticano ensejaram que as “bases” — ou seja, as conferências episcopais e os movimentos de leigos de orientação progressista — respondessem ao questionário Baldisseri exigindo não somente uma mudança pastoral, mas até mesmo doutrinária da Igreja em relação à homossexualidade e à indissolubilidade matrimonial.

Com efeito, o então presidente da Conferência episcopal alemã, Dom Robert Zollitsch, arcebispo de Friburgo, chegou a publicar um documento oficial encorajando os divorciados recasados a aproximar-se sem escrúpulo da mesa da comunhão, com base numa simples “decisão de consciência”.

Em resposta a essa iniciativa escandalosa, o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal alemão Gerhard L. Müller, em longo artigo publicado pelo “Osservatore Romano” em 23 de outubro de 2013, viu-se forçado a reafirmar a indissolubilidade do matrimônio e proibição da comunhão aos pecadores públicos, artigo no qual, de passagem, condenava a “teologia da economia” praticada pelos cismáticos ortodoxos.

Mas a intervenção do cardeal Müller viu-se obnubilada por declarações de dois cardeais muito chegados ao Papa Francisco e membros do G8 — grupo de oito cardeais que assistem o Pontífice na reforma da Cúria.

De um lado, o cardeal Reinhardt Marx, arcebispo de Munique, declarou que dito artigo não podia “fechar a discussão” e, de outro, o cardeal Oscar Rodríguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa, afirmou que “Müller é um professor de teologia alemão, na sua mentalidade só há o verdadeiro e o falso. Mas, meu irmão, o mundo não é assim, você devia ser um pouco flexível”.

Tres Propostas Explosivas

No meio desse debate, e aproveitando que, por ocasião do último consistório para a criação de novos cardeais, o corpo cardinalício se encontrava em peso em Roma, o Papa Francisco pediu-lhes que debatessem sobre a família com base em um relatório introdutório por ele confiado ao cardeal Walter Kasper, que já em fins do século passado havia se posicionado a favor da superação da proibição da comunhão aos divorciados recasados.

A proximidade do Papa Francisco com o cardeal Kasper tinha ficado manifesta por ocasião do primeiro Angelus do atual pontificado, quando o Pontífice disse que estava lendo um livro deste último sobre a misericórdia de Deus, no qual ele se revelava um “teólogo de mão cheia”.

O cardeal Kasper, no seu relatório de duas horas apresentado a portas fechadas no Consistório de cardeais, desenvolveu a tese de que a Igreja deveria operar uma “mudança de paradigma” em relação à comunhão aos divorciados recasados, considerando a situação a partir da perspectiva de quem sofre e pede ajuda. E fez três propostas explosivas:

• Que, nos casos daqueles que em consciência estão convencidos de que seu precedente casamento foi irremediavelmente desfeito e nunca teve validade, em lugar de confiar a avaliação de sua eventual nulidade aos Tribunais Eclesiásticos, o bispo a confiasse a um sacerdote com experiência espiritual e pastoral;

• Que, nos casos de divorciados recasados que têm obrigações com filhos nascidos de uma segunda união, lhes fosse aberto o acesso à mesa da comunhão eucarística, uma vez que, segundo Bento XVI, eles podem receber a comunhão espiritual (a forma de comunhão daqueles que estão impedidos de recebê-la por razões materiais: distância, reclusão, etc.).

“Quem recebe a comunhão espiritual é uma só coisa com Jesus Cristo. […] Por que, então, não pode receber também a comunhão sacramental?” – alegou o cardeal…

• Que na Igreja primitiva teria existido um direito consuetudinário segundo o qual os cristãos que viviam uma segunda união tinham a sua disposição — embora o primeiro cônjuge estivesse vivo e após um tempo de penitência — não um segundo casamento, mas uma tábua de salvação pela participação na comunhão.

Enquanto a Igreja latina teria abandonado esse costume, as Igrejas ortodoxas o conservaram, conforme o princípio para eles válido da oikonomia.

Note-se que o cardeal Kasper não exprimiu uma única palavra de condenação ao divórcio, nem sobre as desastrosas consequências deste para a sociedade; tampouco mencionou o grave dever da pessoa que se encontra em pecado mortal de rezar para obter a graça de sair dele (o que não se confunde com a comunhão espiritual, reservada, segundo muitos teólogos, a quem está em estado de graça).

Aliás, a proposta do cardeal envolve um paradoxo: ao invés de se arrepender da situação de pecado em que se encontra, o divorciado recasado deveria se arrepender de seu primeiro e
autêntico casamento!

Além disso, se a Igreja admitisse a legitimidade de uma convivência pós-matrimonial estável (segunda união), não se vê por que não deveria permitir também as convivências pré-matrimoniais estáveis e sinceras.

Finalmente, sua tese de que a Igreja primitiva admitia à comunhão os divorciados recasados foi demolida nas semanas seguintes por renomeados historiadores, os quais demonstraram que aquilo que os concílios tinham aprovado era a comunhão dos viúvos — e não dos divorciados — que se voltavam a casar.

A Resistência dos Purpurados, Historiadores, Teólogos, Canonistas e Moralistas

Cardeal Kasper

Naturalmente, a palestra do cardeal Kasper encontrou a oposição de vários cardeais, que na mesma manhã daquele dia se exprimiram num debate sereno e fraterno. Na parte da tarde, o Papa Francisco permitiu que apenas o cardeal Kasper fizesse uso da palavra, para replicar as críticas que recebera de manhã.

Ao noticiar o desenvolvimento do Consistório, o Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, apresentou o relatório Kasper como estando “em grande sintonia” com o pensamento do Papa Francisco.

Confirmou-o no dia seguinte o próprio Pontífice, que na conclusão do Consistório assim se exprimiu: “Ontem, antes de dormir, mas para não dormir, li — reli — o trabalho do cardeal Kasper e queria agradecer-lhe porque li uma teologia profunda, também um pensamento sereno na teologia. […] Fez-me bem e me deu uma ideia — desculpe-me, eminência, se o faço corar —, mas a ideia é que isto se chama ‘fazer teologia de joelhos’. Obrigado. Obrigado.”

Tal apoio ter-se-ia evidenciado também pelo fato de o Papa ter vetado a publicação no “Osservatore Romano” de uma intervenção em sentido oposto ao relatório Kasper preparada por um cardeal de grande destaque, segundo informou o vaticanista Sandro Magister, grande conhecedor dos bastidores do Vaticano.

Sentindo as costas quentes, o cardeal Kasper empreendeu uma verdadeira rodada de conferências e entrevistas de imprensa para divulgar e defender suas teses, dizendo que elas não implicam uma mudança da doutrina da Igreja a respeito da indissolubilidade do matrimônio, mas apenas uma praxis pastoral.

Em tais intervenções, ele invocava sistematicamente o suposto apoio do Papa Francisco, o que levou o cardeal Raymond Burke a comentar jocosamente que o pontífice não padece de laringite e não precisa de porta-voz para exprimir o que pensa.

A divulgação das teses kasperianas encontrou a resistência de bom número de purpurados — entre os quais cabe destacar os cardeais Burke, Müller, Brandmüller, de Paolis, Caffarra e Pell — e de historiadores, teólogos, canonistas e moralistas.

Cabe especial menção um trabalho publicado por oito professores dominicanos dos Estados Unidos, os quais ressaltaram que o relatório do cardeal alemão significa, nem mais nem menos, a supressão da obrigação de castidade segundo o próprio estado, como se os fiéis não tivessem certeza da ajuda da graça para mantê-la.

Se fosse aceita a comunhão para os divorciados recasados — diziam os teólogos dominicanos — “não se vê como a Igreja poderia recusá-la aos casais que coabitam ou às pessoas engajadas numa união homossexual, etc.

Com efeito, a lógica dessa posição sugere que a Igreja deveria abençoar tais uniões (como o fazem agora os anglicanos) e mesmo aceitar toda a gama que comporta a ‘liberação’ sexual contemporânea. A comunhão para as pessoas divorciadas recasadas não é senão
o começo”.

Nas vésperas do Sínodo Extraordinário, os cinco primeiros cardeais acima mencionados publicaram suas intervenções, reunindo-as às de outros quatro peritos em um livro sob o expressivo título “Permanecendo na verdade de Cristo”: Matrimônio e comunhão na Igreja Católica.

A obra percorre a história de séculos de resistência católica à comunhão aos divorciados recasados, e mostra que nela não se encontra nenhum argumento a favor do tipo de “tolerância” que o Cardeal Kasper propõe. Esse prelado deplorou a publicação do livro, classificando-a de “afronta” para golpear o Papa Bergoglio.

Nas semanas prévias ao Sínodo Extraordinário, o Pontífice convidou 26 prelados a participar do mesmo, entre os quais o próprio cardeal Walter Kasper e o cardeal belga Godfried Daneels, que já no Sínodo de 1999 havia se pronunciado a favor de uma abertura pastoral aos divorciados recasados.

Outro favorecido foi o arcebispo Víctor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica de Buenos Aires, ao qual confiou a vice-presidência da comissão encarregada de redigir a mensagem do Sínodo ao mundo.

Relatório Intermediário abertamente conflitivo com o ensino tradicional da Igreja

No dia 5 de outubro de 2014 abriu-se finalmente o Sínodo Extraordinário, com uma anomalia: a comunicação pelo secretário, cardeal Baldisseri, de que as intervenções na aula não seriam publicadas, mas que se daria das mesmas apenas uma visão de conjunto, através dos responsáveis da sala de imprensa com o auxílio de alguns participantes escolhidos pela secretaria do Sínodo.

O cardeal Müller protestou em vão contra essa censura, a qual não obstante se efetivou, porquanto em duas semanas de discussões as conferências diárias de imprensa se cingiram a dar uma versão parcial do acontecido, e apenas uma vez um prelado anti-Kasper foi convidado a
delas participar.

Verificou-se uma segunda anomalia no fato de o Papa reforçar a equipe de três redatores do documento final com seis prelados escolhidos por ele próprio, entre os quais o ultra-progressista cardeal Gianfranco Ravasi, o seu arcebispo protegido Dom Víctor Manuel Fernández, e o Geral da Companhia de Jesus, Pe. Adolfo Nicolás.

A criatividade manipuladora dessa equipe redatora ficou comprovada no dia 13 de outubro (por sinal, festa da última aparição de Nossa Senhora em Fátima), quando a leitura do relatório intermediário das discussões suscitou críticas veementes dos participantes, para os quais ele não refletia o verdadeiro conteúdo das intervenções.

De fato, o relatório intermediário não era apenas parcial — desenvolvendo as teses da minoria pró-Kasper —, mas abertamente conflitivo com o ensino tradicional da Igreja, uma vez que:

• apresenta a “mudança antropológico-cultural” da sociedade (leia-se a revolução sexual e suas consequências: coabitação, divórcio, contracepção artificial, homossexualidade etc.) como um “desafio” para a Igreja, sem fornecer nenhum elemento de avaliação moral;

• introduz um novo e surpreendente princípio moral, a “lei da gradualidade”, que permite colher elementos positivos em todas as situações objetivamente pecaminosas, como as relações pré-matrimoniais ou as uniões homossexuais, reconhecendo que, nelas, “a semente do Verbo se espalhou além das fronteiras visíveis e sacramentais” (ou seja, qualquer pecado passa a constituir uma forma imperfeita de bem, face ao qual é preciso praticar uma espécie de “ecumenismo com
o mal”);

• sublinha “a realidade positiva dos casamentos civis e, feitas as devidas diferenças, também das coabitações”, subvertendo a doutrina da Igreja segundo a qual a estabilização no pecado constitui uma falta mais grave do que a união sexual ocasional e passageira, porque torna mais difícil o retorno ao caminho certo;

• chega a afirmar que “as pessoas homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã” (insinuando que elas brotam da condição homossexual) e nota que “há casos em que o suporte mútuo com vistas ao sacrifício constitui um apoio precioso para a vida dos parceiros” homossexuais, promovendo de fato a legalização de tais uniões, sem sequer apresentar objeções à adoção de crianças por tais parceiros!

Como era de esperar, o escandaloso relatório intermediário foi celebrado universalmente pela grande imprensa como a aurora de uma nova era na qual a Igreja finalmente se reconciliaria com o mundo moderno e aceitaria os novos modelos de convivência nascidos da revolução sexual.

Cúpula do Sínodo tenta manobra para silenciar as críticas e
provoca vozerio
 

Cardeal Wilfrid Napier

Na conferência de imprensa oficial do Sínodo do dia seguinte, o cardeal sul-africano Wilfrid Napier deplorou o texto do relatório e sua divulgação mundial, que teria colocado a Igreja em uma situação “sem saída”, porque “a mensagem já partiu: ‘é isto que diz o Sínodo, é isto que diz a Igreja’.

Agora não há mais retificação eficaz, tudo que podemos fazer é tentar limitar os danos”.

Foi o que tentaram fazer os dez círculos de trabalho em que se dividiram, por idiomas, os padres sinodais, alguns dos quais elegeram para presidi-los personalidades conhecidamente conservadoras, como o cardeal Burke ou o arcebispo Dom Léonard, de Bruxelas.

Na grande maioria desses círculos de trabalho, onde os padres sinodais podiam exprimir-se livremente, o relatório intermediário foi literalmente destroçado por uma enorme massa de propostas de emenda no sentido de que o relatório final deveria ressaltar sobretudo que o único modelo de casamento é a união indissolúvel entre um homem e uma mulher com a finalidade primária de procriação e educação na fé, e que a pretensa “lei da gradualidade” pastoral não deve ser entendida como uma “gradualidade da lei” através da qual todas as situações irregulares passam a ser consideradas de modo positivo.

Diante do conteúdo negativo da grande maioria dos relatórios dos dez círculos linguísticos, na quinta-feira, 16 de outubro, quando as sessões conjuntas foram retomadas, a cúpula do Sínodo tentou uma manobra para limitar o seu impacto. Tendo o Papa a seu lado, o cardeal Baldisseri, secretário-geral, avisou que os referidos relatórios não seriam tornados públicos.

Tal anúncio fez com que um vozerio explodisse literalmente na sala, tendo o cardeal australiano George Pell, que o liderou, mostrado a injustiça e a parcialidade da decisão, e o risco de que, permanecendo desconhecidas as propostas de emenda, o texto final simplesmente
as desconsiderasse.

Depois de acaloradas intervenções no mesmo sentido e apesar do silêncio sepulcral do Papa Francisco, o próprio Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, somou sua voz à dos que solicitavam a publicação dos relatórios dos grupos de trabalho, sendo então o cardeal Baldisseri, muito a contragosto, obrigado a ceder.

Para acalmar os espíritos e dar garantias de alguma imparcialidade, o Papa Francisco anunciou, na tarde desse dia, que colocava mais dois membros na comissão redatora do texto definitivo, um dos quais o combativo cardeal Wilfrid Napier.

Três parágrafos do Relatório Final rejeitados pela
Assembleia Sinodal

Apesar de a comissão redatora ter produzido um texto de compromisso, na votação final apenas um dos 62 parágrafos recebeu aprovação unânime, e três não obtiveram a maioria de dois terços requerida estatutariamente para a aprovação e inclusão no relatório final da Assembleia Extraordinária do Sínodo.

Dois dos parágrafos rejeitados tratavam da questão da comunhão aos divorciados recasados (descrevendo a divergência de posições entre os padres sinodais), e o terceiro da atenção pastoral às pessoas com
tendência homossexual.

Apesar dessa rejeição, e contrariando mais uma vez o regulamento, o Papa Francisco ordenou que eles figurassem no texto final a ser enviado às dioceses e paróquias para nutrir a discussão nos próximos meses e inspirar as propostas da “base” para a segunda etapa, ou seja, o Sínodo Ordinário de outubro de 2015.

Não obstante a inesperada resistência de um número ponderável de padres sinodais, incluídos vários cardeais de destaque, o cardeal Walter Kasper e seus seguidores não deram o braço a torcer e pretendem continuar a marcha para a frente até obter a mudança pastoral (e necessariamente doutrinária) da atitude da Igreja face às situações matrimonias irregulares e as
uniões homossexuais.

Perguntado se considerava esse resultado do primeiro Sínodo “uma derrota” da estratégia do Papa Francisco, seu discípulo e amigo, D. Víctor M. Fernández — um dos redatores do texto final —, respondeu ao jornal “La Nación”, de Buenos Aires, que “de maneira alguma” teria sido uma derrota, porque o Pontífice nunca propôs uma solução concreta, mas apenas quis que o assunto fosse debatido com toda franqueza.

Ainda segundo ele, na questão da comunhão aos divorciados recasados, a maioria dos bispos foi favorável a uma abertura e “havia apenas um grupo de seis ou sete muito fanáticos e um pouco agressivos, que não representavam nem 5% do total”…

Debates do Sínodo não foram senão um começo e ameaçam provocar um Cisma

O diretor do renomado mensário “Civiltà Cattolica”, o jesuíta Pe. Antonio Spadaro, convidado pelo Papa a participar do Sínodo, declarou que “Graças à decisão do Pontífice, todos os pontos discutidos continuam quaestiones disputandae [questões abertas ao debate], mas iluminadas por todo o confronto sinodal. O processo portanto permanece aberto e requer a participação do povo de Deus por um ano inteiro.”

Por sua vez, o cardeal Reinhardt Marx declarou ao jornal alemão “Die Zeit”: “Até agora, esses dois assuntos [comunhão para os divorciados recasados e aceitação das uniões homossexuais] eram absolutamente não negociáveis. Apesar de não terem obtido a maioria de dois terços, a maioria [simples] dos padres sinodais votou, porém, a favor delas.

Eles ainda fazem parte do texto. […] Este papa abriu as portas e o resultado do voto no final do Sínodo não vai mudar isso. […] Os debates do Sínodo não foram senão um começo. Francisco quer que as coisas vão para a frente, que o processo continue. O verdadeiro trabalho está para começar“.

É imutável a Natureza do Casamento Indissolúvel

Cardeal Raymond Burke

Em entrevista à cadeia de televisão norte-americana “CNS News”, o cardeal Raymond Burke reiterou a impossibilidade de uma mudança do ensinamento da Igreja sobre o casamento. Perguntado se o Papa poderia mudar a natureza do casamento indissolúvel restaurado por Nosso Senhor Jesus Cristo, ele afirmou peremptoriamente:

“Não, não está em seu poder. E está muito claro no ensinamento da Igreja que se um casamento foi validamente celebrado e consumado [pelas relações conjugais], ele não pode ser dissolvido. Não pode ser terminado por nada, exceto
pela morte
”.

* * *

As posições são portanto inconciliáveis. O que levou um conhecido colunista católico do “New York Times on Sunday”, Sr. Ross Douthat, a tocar o alarme: através desse Sínodo sobre a família, o Papa levou a Igreja à borda de um precipício.

E se o Sínodo continuar nessa trajetória — disse o colunista —, ele vai “semear a confusão no meio dos aderentes mais ortodoxos da Igreja” e poderia eventualmente conduzir “a um verdadeiro cisma”.

Uma hipótese que já havia sido aventada por D. Rogelio Ricardo Livieres, bispo de Ciudad del Este, no Paraguai, destituído por Francisco I por não estar em sintonia com o resto de episcopado paraguaio – maciçamente solidário com o ex-presidente Lugo e a “Teologia da Libertação”.

Não há dúvida de que estamos diante de um Sínodo realmente extraordinário. Sob todos os pontos de vista…
______________________

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 768 (Dezembro/2014)

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