Leia aqui a primeira parte
Trecho do TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM, por São Luís Maria Grignion de Montfort; 19ª edição – Editora Vozes – Petrópolis, 1992.
“1º)Sua fé viva pela qual creu fiel e constantemente até o pé da cruz sobre o calvário;
2º) Sua humildade profunda que A levou a esconder-se e calar-se e submeter-se a tudo, e a colocar-se em último lugar, 3º) Sua pureza divinal que jamais teve nem terá semelhante sob o céu e, por fim, todas as outras virtudes.
“Lembrai-vos, repito em uma segunda vez, que Maria é o grande e único molde de Deus, próprio para fazer imagens vivas de Deus, com pouca despesa e com pouco tempo. E que uma alma que encontrou este molde e que nele se perde, fica em breve inundada em Jesus Cristo aí representado ao natural.”
* A fé é uma confiança em Deus, por onde, nas circunstâncias mais adversas, se está certo de que a bondade de Deus não nos desampara
O solo da Igreja católica é sempre fecundo, o problema é saber se nossa fé é viva, se a raiz de nossa virtude é viva.
São Luís Grignion de Montfort toma a palavra fé em dois sentidos. Ele a toma no sentido de crer em tudo que a Igreja ensina, mas também em outro sentido: é uma confiança em Deus por onde, nas circunstâncias mais adversas, se está certo de que a bondade de Deus não nos desampara.
E ele dá então o exemplo supremo no qual Nossa Senhora deu prova da fé em ambos os sentidos da palavra: Nossa Senhora ao pé da cruz, no alto do calvário.
Ela ali tinha, antes de tudo, uma prova para a fé, quer dizer, quanto à crença. Porque é verdadeiramente terrível Ela, Mãe de Deus, sabendo que seu Filho era a vítima inocente por excelência, ver o Filho tratado como um perseguido pela justiça de Deus e dos homens.
* A Paixão: aspecto misterioso da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo
Há um mistério em torno de Nosso Senhor, a partir do momento do Horto das Oliveiras, em que se tem a impressão de que toda a cólera do Pai Celeste, do Padre Eterno, se descarrega sobre Ele, e de que todas as coisas acontecem para fazê-Lo sofrer. É uma seqüência impressionante de tormentos e de dores que Ele atravessa com aquela grandeza, com aquela serenidade, com aquela resolução, com aquela determinação, que vai desde o momento em que começa a suar sangue e a ter pavor, até o momento em que exclama do alto da cruz: “Meu Pai, Meu Pai, por que Me abandonaste?” E depois disso, consumatum est, como quem diz: “A medida foi cheia, Eu bebi o cálice inteiro”.
Nossa Senhora, ou pelas revelações ou a partir do momento do encontro, assiste àquilo tudo e crê sem um minuto de vacilação. Ela crê no que deve crer, quer dizer, que isto que parece uma injustiça pasmosa, é um pasmoso ato de justiça. Que o Filho d’Ela se ofereceu para ser o expiador de todos os pecados do mundo, e que, portanto, a cólera merecida por todos os pecados do mundo se descarrega de fato sobre Ele. E que sublimemente triturado pela cólera divina, Ele está com isto resgatando o mundo. Que isto tem um sentido altíssimo, profundíssimo, e que aí Ele realiza a missão d’Ele, e Ela realiza a missão d’Ela.
Ela crê nisso o tempo inteiro e esta fé A mantém de pé junto à cruz, sem nenhuma vacilação. Mas, de outro lado, Ela tem uma confiança sem limites na bondade de Deus. E Ela sabe que esses tormentos darão numa glória: darão na Ressurreição; darão na Ascensão; darão no Pentecostes; darão na glorificação do nome d’Ele em todas as épocas da História; darão naquele momento supremo de glória que é o fim do mundo, quando toda humanidade de todos os tempos estiver aos pés d’Ele e Ele pronunciar o juízo definitivo em função d’Ele: os que foram d’Ele vão para o Céu, os que não foram dEle vão para o inferno.
Quer dizer, toda esta imensidade de glória Ela sabia que era o prêmio que a bondade divina daria a tanta fidelidade. Ela estava ao pé da cruz, alimentada por essa esperança sublime, portanto na posição que Ela tinha tomado. Esta era Maria.
* Como se põem os problemas de fé para as novas gerações?
Poderia se pôr também para nós o problema: nas horas de aflição, de dor, de trevas, temos esta confiança em Deus? Antes de tudo, cremos com uma fé tão viva? E, em segundo lugar, temos essa confiança na bondade de Deus? Qual é o problema de crer com esta fé tão viva?
Se eu interpreto bem os estados de alma da minha dileta geração-nova – tão majoritária no auditório, que é em grande maioria a ela que me dirijo –, se eu entendo bem os estados de alma de minha cara geração-nova, os problemas de fé não se põem propriamente em termos apologéticos. Não é saber se está provado que Deus existe ou não, quais são as provas apologéticas de que Nosso Senhor Jesus Cristo existiu, de que Ele foi Deus. Tudo isto não nos preocupa tanto.
Mas é quando acontece alguma coisa com que não se contava; alguma coisa que não queríamos e que acontece de um modo que não se imaginava; então ficamos estupefatos: “ah! como é que foi isto?”
Mas como nós estamos sob os olhares de Nossa Senhora, as derrotas mais cedo ou mais tarde revertem em glória. É preciso ter confiança, acreditar na bondade d’Ela.
* Ainda que venham vagalhões que nos dêem a entender que a bondade não existe, nós devemos confiar, com os olhos fechados, que virá o momento em que isto vai se manifestar
É preciso crer em tudo quanto a Igreja ensina. Portanto, em todo o sobrenatural, em toda a bondade de Nossa Senhora. É preciso de outro lado,
além de crer nessa bondade, quando vêm vagalhões que nos parecem dar a entender que essa bondade não existe, nós confiarmos, com os olhos fechados, que virá o momento em que isto vai se manifestar para nosso caso concreto nesta vida; vai se manifestar uma grande expressão da bondade d’Ela, e então nós veremos isto chegar.
Esta é a posição de Nossa Senhora diante das circunstâncias difíceis da vida, esta é a posição que Ela nos pede que tomemos, mas olhando para Ela, pensando: “Ela é nossa Mãe e nossa Rainha. Por onde Ela passou nós devemos passar, e se Ela nos deu o exemplo, nós devemos seguir.”
Mas, com uma diferença, com que colossal e imensa diferença, com que fabulosa diferença: é que Nossa Senhora não tem comparação com ninguém, nenhum ente criado tem qualquer forma de comparação possível com Nossa Senhora. Nós podemos tomar o mais rutilante dos Anjos, o santo mais assombroso como virtude, ele não tem nenhuma comparação possível com Nossa Senhora. Um grão de areia e o mais belo dos brilhantes são muito mais próximos um do outro do que o é o mais alto Querubim, ou o mais alto Serafim, ou o mais alto santo e Nossa Senhora.
Ela sabe disso e Ela conhece a nossa fraqueza. E, por causa disto, Ela é Mãe de Misericórdia também num outro sentido: Ela não nos pede apenas sacrifícios de estrangular, aflições de escaldar, mas Ela mesma é nossa consoladora.
* Ao mesmo tempo, Rainha dos Mártires e Consoladora dos Aflitos
Quer dizer, Ela socorre os que sofrem, lhes diminui as penas, lhes atenua as aflições, intervém a propósito de mil circunstâncias para mostrar que Ela é Mãe; para sorrir e para nos fazer entender que não nos será exigido o que foi exigido d’Ela. Porque se um de nós tivesse que suportar a dor que Ela teve num só dos episódios da Paixão de Nosso Senhor, se desintegraria.
Por exemplo, se nós tivéssemos a ventura de amar Nosso Senhor Jesus Cristo como Ela O amou, e nós passássemos pelo ato – uma verdadeira cerimônia – do encontro em que Ela O encontrou daquele modo desfigurado, na Via Sacra, nós literalmente nos desintegraríamos.
Ela sabe disso e muito do que Ela sofreu ali foi para que não tivéssemos que sofrer tanto. E é por isto que a Rainha dos Mártires é ao mesmo tempo a Consoladora dos aflitos. Há quase uma contradição entre isso, porque a Rainha dos Mártires deve ensinar os mártires a sofrer, e a Rainha dos aflitos ajuda os homens a não sofrer, afasta o sofrimento dos homens. Ela é a Consoladora dos aflitos.
Ela muitas vezes nos dá forças para suportar uma aflição, outras vezes Ela afasta de nós essa aflição. Quantas e quantas e quantas vezes!
Então, aos pés de Nossa Senhora nós saberemos apresentar as aflições que não suportamos e dizer a Ela: “Minha Mãe, vede a minha fraqueza. Se Vós não me dais forças excepcionais, eu não agüento, apressai-Vos em me socorrer”.
Ou até dizer outra coisa: “Minha Mãe, eu não tenho nem coragem de Vos pedir forças excepcionais, mas eu Vos peço um sorriso para minha fraqueza, um perdão para minha fraqueza, uma condescendência para com minha fraqueza. Mais adiante talvez eu agüente alguma coisa de parecido com isto. Se eu não agüentar, perdoai-me e levai-me para o Céu assim mesmo, porque Vós sois Mãe de toda misericórdia”.
Esta é a posição que a fé nos ensina que devemos tomar.
Aí está a referência a Nossa Senhora como modelo de fé, considerada em função das aflições de nossa vida particular.
* A humildade é o compreender que se deve atribuir a Deus tudo quanto se tem
Nós poderíamos falar da humildade de Nossa Senhora. Bem entendido, não é uma humildade sentimental e adocicada de pessoa que nega tudo quanto Deus pôs nela e toda sua própria grandeza. Vê-se isso no Magnificat, quando Ela diz que “bem aventurada A chamarão todas as gerações”.
Onde está a humildade d’Ela? É em compreender que Ela deve atribuir a Deus tudo quanto Ela tem; isto sim é humildade. Também, não querer ser mais do que Ela é.
Alguém dirá: “Mas Dr. Plinio, se Ela era tudo, como não querer ser mais do que é?”. Há abismos de miséria no homem. Não havia n’Ela porque era concebida sem pecado original.
Muitas vezes, quem é mais tem inveja de quem é menos, porque ele quereria ser o que ele é e ter mais do que o outro tem. Então, o sujeito é, digamos, um grande violinista, mas vê um outro que assobia bem – uma coisa tão inferior – e fica com inveja: “Aquele bandido assobia bem, eu queria saber assobiar também”!
Nossa Senhora não tinha inveja dos que eram menos, Ela estava bem na sua posição. Estar na sua posição é a verdadeira humildade.
E por fim, São Luís Grignion de Montfort fala da pureza de Nossa Senhora. Sobre a pureza de Nossa Senhora não há o que dizer. Ela é a Santa Virgem das virgens. Ela é a Virgem Mãe, Virgem antes, durante e depois do parto, Ela é o próprio modelo da pureza, Ela é a fonte da pureza.
* Fazer tudo com Maria é ser contra-revolucionário na perfeição
Se formos cheios de fé, cheios de humildade – quer dizer, de senso hierárquico, de sacralidade que atribui tudo a Deus – e cheios de pureza, nós seremos os contra-revolucionários por excelência, porque esse é o contra-revolucionário.
Então, fazer tudo com Maria é ser contra-revolucionário na perfeição. Se A tomamos como Modelo, fica-nos muito mais fácil. Ela nos ajuda. Rapidamente seremos como Ela, desde que creiamos inteiramente na eficácia da devoção a Ela. Quer dizer, desde que compreendamos que é preciso fazer como diz São Luís Grignion de Montfort: fazer tudo muito unidos a Ela. Se fizermos tudo muito unidos a Ela, tudo obteremos. Se nos custa a obter é porque não estamos bem unidos a Ela. Isso é o que devemos considerar.
Resultado: pedir a Nossa Senhora com todo empenho que Ela nos dê esta vigilância, sobretudo nos dê a compreensão das altíssimas virtudes d’Ela, para fazermos tudo querendo ser perfeitos contra-revolucionários como Ela, que foi o modelo supremo, a fonte, o canal, se quiserem, da Contra-Revolução. Nós nos transformaremos rapidamente.
É o que eu tinha a dizer.